quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Esquerdismo Caviar e Liberalismo Cavalar

O livro Esquerda Caviar de Rodrigo Constantino saiu poucas semanas depois de A Civilização do Espetáculo de Vargas Llosa, ambos tratando de temas da conjuntura cultural internacional, embora sob diferentes enfoques.

Enquanto Vargas Llosa aborda o declínio da cultura erudita, em favor da cultura da frivolidade, um fenômeno que não é novo, porém turbinado pela era da Internet, Rodrigo Constantino se limita ao comportamento humano naquilo que se chama de politicamente correto e, sobretudo, do desastre ideológico contemporâneo na gênese da reorganização do marxismo sebento em bolivarismo fraudulento.

Se Vargas Llosa enxerga a situação atual com pessimismo, fruto da vigarice intelectual, da midiatização da fraude em nome da arte, Rodrigo Constantino a vê como uma manifestação ideológica, fruto da personalidade oportunista. Ele confessa sua perplexidade com líderes culturais que preferem defender abertamente ditadores e ditaduras, enquanto se banqueteiam com as benesses do capitalismo avançado. Comenta a falácia de líderes ambientalistas que se valem de jatos particulares para viajar mundo afora e fazer propaganda do aquecimento global.

Analisa, dentro das esquerdas engomadinhas, as bandeiras do antiamericanismo, o culto ao multiculturalismo, o guevarismo messiânico, a justiça social e o utopismo juvenil. Em um capítulo chamado Sem Preconceitos, que talvez seja o melhor do livro, aborda um tema pouco divulgado nas mídias sociais, o da impossibilidade de não haver preconceitos na esfera de apreensão humana das questões cujas aparências necessariamente devem servir de alerta para todos nós. A criação do estereótipo é tão importante quanto o cuidado que se deve ter para não discriminar pessoas somente pela aparência.

Exceto este capítulo, o livro é apenas um apanhado do que circula na Internet. Sendo Constantino um dos representantes mais influentes da nova geração liberal, seu livro denota uma quase total ausência de conhecimento sobre o legado das gerações liberais brasileiras anteriores, tal como Emil Farhat.

Esta perda de elo com o passado dos nossos analistas sociais é um dado que abre um precedente perigoso, na medida em que as novas mídias, não podendo substituir o repertório acumulado, relegam ao esquecimento todo o esforço intelectual do passado.

Um exemplo típico disso são as atenções da nova geração liberal relativas aos fenômenos contemporâneos: quando da crise americana das hipotecas de 2008, o surto de keynesianismo do governo Obama foi combatido no Brasil com a publicação da trilogia de Ayn Rand, chamada A Revolta de Atlas, o que produziu uma quantidade apreciável de leitores em todo o país. Entretanto, quando da vitória do PT em 2002, ninguém desta geração percebeu que era urgente reeditar O País dos Coitadinhos, seguido de O Paraíso do Vira-bosta, a propósito do populismo magistralmente analisado por Emil Farhat, nos anos 60.

O que se passou no Brasil desde a vitória do PT, em termos de dissolução moral e institucional, merecia uma reflexão mais atenta dos liberais desta nova geração, pois afinal todo populismo carrega os mesmos vermes destruidores em qualquer época, e está se repetindo nos dias atuais, com seu economicídio apenas atenuado pelo crescimento espetacular das exportações de commodities até 2010. A crítica liberal não aconteceu porque houve este descolamento da cultura nacional em favor da globalização, que acaba atuando como uma Wikipédia de reminiscências históricas, sem deter-se no testemunho do momento histórico revelado pelos analistas contemporâneos.

A Wikipédia pode ser um guia geral para orientação, mas quando se está em confronto com uma realidade nacional em que as palavras funcionam como jabuticabas, é preciso ter cuidado, pois vivemos um momento de incontáveis mistificações semânticas, levadas a cabo por uma ideologia claudicante que não mede esforços para se apropriar das palavras para a consolidação de seu discurso de inversões. Todos nós sabemos que a palavra democracia tem sido usada até para denominar países socialistas. O duplipensar utiliza um conjunto semântico realmente grande, e como toda a esquerda se organiza em um discurso, os liberais não podem fazer concessões sob o risco de serem escanteados para sempre do poder, pois quem não tem escrúpulos para a moralidade republicana, não os terá para usar as mesmas ideias e expressões.

É o caso de reacionário que se lê na p. 91: “quando me deparo com essa agenda cultural esquerdista, onde 'vale tudo', onde o único ser bizarro é o heterossexual fiel e cavalheiro, educado e atencioso, confesso que sinto vontade de ser um carola, moralista, puritano, conservador e reacionário, algo que, definitivamente, não sou. Nelson Rodrigues até aceitava o rótulo de reacionário, pois dizia que, de fato, reagia contra tudo aquilo que não prestasse. Neste aspecto, sim, sou um 'reacionário' também”.

Conta Wilson Martins, em seu monumental História da Inteligência Brasileira, que foi Jackson de Figueiredo quem deu sentido à palavra reacionário. A palavra passou a ser aceita pelo “pensamento católico para definir-lhe (sic) a posição: os inimigos a abater eram a 'democracia liberal' e a 'corrupção burguesa', plataforma em que se irmanaram católicos e comunistas, anarquistas e tenentes; Hamilton Nogueira chegava a afirmar que os liberais eram as desgraças do Brasil”. (Vol. VI, p. 364)

Isto ocorreu ainda nos anos 20, quando a turbulenta República, assaltada por rebeliões, viria a ser perturbada pela crise do café, ressuscitando as ideias de Antonio Torres, que havia apontado no liberalismo a culpa pela crise endêmica das nossas instituições. Para Antonio Torres, somente um estado forte seria capaz de livrar o país da penúria econômica, e a crise foi o suficiente para que os intelectuais como Plínio Salgado, Olbiano Melo, Miguel Reale, Alceu Amoroso Lima e Azevedo Amaral se alinhassem com as novas ideias corporativistas, e mais tarde integralistas. Este último acusava a democracia liberal como causadora da desordem nacional. Pela primeira vez foi feita a distinção entre regimes autoritários e totalitários, termos que seriam usados recorrentemente pelo regime militar de 64.

Obiano Melo escreveu um livro em 1929 contendo o esboço de um estado sindical corporativo a que daria o nome de República Sindicalista dos Estados Unidos do Brasil. Esta mentalidade não durou muito, mas foi o suficiente para causar o estrago da Era Vargas, cujo pesadelo durou até 1945, embora o populismo subsequente viesse ressuscitar o fantasma do reacionário.

A nova fase de insurgência do reacionário foi no pré-64. O populismo vinha destruindo o país com os constantes déficits orçamentários de duas grandes corporações: os ferroviários e os portuários. As legislações trabalhistas criaram tal sorte de privilégios, a perda de autoridade chegou a tal ponto entre os trabalhadores, que se criaram leis obrigando nossos navios costeiros a navegar com uma tripulação oito vezes maior do que os cargueiros internacionais. Os custos portuários foram subindo em níveis tais, que o país ficou incapacitado de utilizar seus portos e ferrovias para o escoamento da produção nacional.

Quando o populismo se transfigura em eleitoralismo, em concessionismo incontrolável, qualquer reivindicação de grupos organizados passa a ser aceita imediatamente por tantos partidos políticos quantos disputem o poder. Desaparecem os freios ideológicos e todos os candidatos se arremessam em promessas encantatórias e mirabolantes.

Com o país paralisado em seus meios de transporte, com uma inflação galopante ano a ano, eis que um ministro do governo Jango bolou uma ideia que haveria de trazer ao vocabulário nacional novamente o espantalho do reacionário: as reformas de base, entendidas como a reforma agrária, a reforma urbana e a reforma educacional. Aquilo que o populismo destruía em ação política, agora seria saneado pelo salvacionismo das reformas de base. E quem se manifestasse contra, logo era tachado de reacionário.

A nova conspiração nos é revelada por Emil Farhat, em seu O País dos Coitadinhos. Os grupos que gravitavam em torno do PCB, procuravam hostilizar todos os dirigentes “burgueses” com suas ideias torpes e ações coordenadas. “A qualquer atitude ou medida mais decisiva dos seus 'orientados', contra a demagogia ou a favor da livre iniciativa, eles faziam uma careta, entre amuados e superiores, e aplicavam a 'chave' do terror intelectual: 'cuidado, chefe. Cuidado para não o chamarem de reacionário!... Olhe o seu futuro político junto às massas...” (p. 35)

O temor era generalizado. Ninguém recuava diante de uma proposta de privilégios a uma categoria estatal, ninguém protestava contra um projeto de lei que inviabilizasse um setor da indústria em favor de interesses do corporativismo. Assim ocorreu com a remessa de lucros, o bode expiatório utilizado para explicar o pagamento dos empréstimos para a construção de Brasília. Como a indústria automobilística havia sido implantada poucos anos antes, as remessas eram mais do que naturais, não fosse o fato de as despesas com a Nova Capital terem secado o caixa do governo.

O reacionário passou a ser todo aquele que ia contra o mainstream do populismo. Neste momento entra em cena a figura de Nelson Rodrigues, um intelectual que não tratava de temas políticos e que, em determinado momento, explode de ira contra a burrice nacional e resolve enfrentar o 'mar de estupidez'. Em entrevista a um colega jornalista, afirma que resolveu deixar de ser covarde. E o resultado foi o contrário do que se poderia supor. Ele começou a ganhar notoriedade com suas polêmicas e receber apoio de uma parte da sociedade acuada e envergonhada com a situação nacional.

Depois que Alceu Amoroso Lima elogiou a revolução cubana, com sua máquina de propaganda castrista, um fenômeno que os intelectuais deste país aderiram até perceberem seu erro, já que os campos de concentração cubanos só apareceram em 1967, Nelson Rodrigues explode em ira e passa a vaticinar contra a adesão ao comunismo, mantendo o mesmo perfil de polemista e crítico social de sempre. Este é o único sentido para sua observação: “sou reacionário porque reajo contra tudo o que não presta.” Mas a observação não tem nenhum sentido filosófico, já que não permite caracterizar exatamente “o que não presta”.

Mas Rodrigo Constantino percebe que o reacionarismo, além de se caracterizar por um 'passadismo retranca', é se opor a uma evidência comprovada em matéria social. Por isso ajusta os ponteiros de sua bússola quando fala (p. 170) de uma “esquerda carnívora”, mais reacionária do que todas, que ainda consegue pregar o socialismo depois de seu vergonhoso fracasso. A esquerda carnívora é aquela que sente atração por caudilhos como Hugo Chávez. Por outro lado, ele sabe pela experiência que existe uma “esquerda vegetariana” que ainda aceita certos postulados da economia de mercado. Ora, como seria uma esquerda que não postulasse a intervenção do estado? Como seria essa esquerda que não postulasse um governo onipotente para resolver os problemas da humanidade?

Talvez estivesse no escorregamento semântico do liberalismo em esquerdismo nos EUA. Mas a mesma coisa aconteceu com o progressismo. Nos tempos de Theodore Roosevelt, o progressismo era conservador e totalmente diferente da apropriação que mais tarde foi feita em seu nome por movimentos contrários a única condição que produz o progresso: o livre mercado e a livre empresa no ambiente competitivo.

A força da esquerda não provém apenas de uma doutrina transfigurada em profecia, porém do fato de se apropriar da mobilização popular de dezenas de reivindicações espontâneas dentro da armadura enferrujada da luta de classes. Não é mais possível um encontro de moradores em um salão paroquial para reivindicar uma linha de ônibus para seu bairro, sem que isto não seja uma “etapa da luta popular revolucionária”.

Os três mandatos dos governos petistas mostraram que não se trata de um partido voltado para a ação, para a governança, mas para o poder, isto é, para organizar um discurso em que a realidade passa a ser aquilo que é enunciado e não o que os fatos possam comprovar. Tarso Genro falou claramente em artigo recente, que os réus do mensalão foram condenados devido a opinião da imprensa contrária a eles. O discurso passa a ser a realidade e os fatos se enquadram ao discurso: isto é o totalitarismo nu e cru.

Por isso, esta nova geração de liberais precisa manter a guarda alerta contra o surto de ortodoxia que lhe cerca, cuja estreiteza mental consiste em jogar as pérolas aos porcos, especialmente legitimando à esquerda a apropriação semântica que ela não tem e não pode oferecer: a democracia e o progresso.

Quem viveu a atordoante revolução tecnológica que se iniciou com a digitalização das redes de telecom há cerca de quarenta anos, passou por incontáveis torturas semânticas. Termos e expressões usados em um ano, passaram a ter significado diverso no ano seguinte. Palavras que tinham um significado único, de repente começaram a incorporar outros sinônimos e, a cada nova geração de equipamentos, vinha um glossário de termos novos ou antigos recauchutados para expressar a nova tecnologia. Isto atenuou com a “maturidade” das novas tecnologias, mas logo novas descobertas vão tirar nosso sossego com os “velhos” vocábulos.

O livro Esquerda Caviar sugere ao leitor a pergunta de saber se nos demais países totalitários, e especialmente na China, não existe um espelhismo em relação ao Ocidente. Em outras palavras, se a penetração da tecnologia do Ocidente e seu way of life, não produziria por acaso um Liberalismo Cavalar na classe ilustrada e cosmopolita da sociedade chinesa, algo como que um reconhecimento e admiração da superioridade da democracia ocidental ainda que com um discurso bem disfarçado nos mitos e sectarismos do marxista. A resposta é seguramente positiva, mas sua análise seria um outro livro.

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