segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Viva o Povo Brasileiro

João Ubaldo Ribeiro – Ed. Nova Fronteira, 1984

Aos poucos vai se tornando um clássico da literatura brasileira. A ambição de João Ubaldo foi traçar a saga da formação do povo brasileiro através da gênese da miscigenação racial no período colonial. Iniciando na Independência do Brasil, na figura do alferes Brandão Galvão, amaldiçoado pela família, que mata um escravo para se cobrir de sangue, e que o utiliza para fazer os emplastros dissimuladores de ferimentos enquanto aguarda escondido o desfecho da batalha, e que se associa às forças vitoriosas para ser condecorado como herói da Independência.

A história começa com uma farsa. Ubaldo nos apresenta a construção de um país pari passu com a acumulação de riqueza através da falcatrua, da negociata, do esbulho e da corrupção. Tudo isso poderia fazer com que a obra não saísse de um romance convencional, não fosse o fato de Ubaldo apresentar uma narrativa que está impregnada com as lantejoulas de nosso barroco verbal precioso, há muito tempo abandonado pela influência preguiçosa da literatura norte-americana.

A contrapartida da fraude institucionalizada transparece na natureza do caráter do brasileiro bem-sucedido da sociedade colonial, em um mundo onde tudo é possível: a lei só existe para os mais fracos e as disputas são resolvidas nas maquinações ardilosas. O alferes Brandão Galvão se apossa dos bens da família, expulsa do país os fiéis do império para Portugal, e coloca sua máquina de produção de açúcar em movimento, contratando para isso um contador, que ardilosamente vai desviando capital para si e que, ao fim, irá dilapidar seus bens através de fraude contábil, e se apossar de sua fortuna quando da morte do alferes, construindo uma nova dinastia de senhores de engenho e negociantes, cujos três descendentes se dedicam ao mundo das finanças, ao clero e à vida militar na figura do general Macário, combatente e herói da guerra do Paraguai.

No plano do povo, temos a saga dos escravos, a história de personagens extraordinários, como o nego Budião, que luta como voluntário na revolução farroupilha, convocado por uma organização semiclandestina chamada justamente Povo Brasileiro. Do estupro do Alferes Brandão com uma escrava, nasce uma menina que anos depois assistirá sua mãe ser assassinada ao se defender de uma tentativa de estupro com um borzeguim, e deste choque se tornará a líder do povo que haverá de resistir às injustiças e lutar pelo fim da escravidão. Maria da Fé é assim uma personagem mítica e real, misteriosa e portadora das aspirações de um povo esquecido em uma sociedade incapaz de conseguir um lugar para a ilustração e o iluminismo que sacodem o mundo no século XIX. Coagulados no mundo colonial mercantil e oligárquico, os personagens de Ubaldo Ribeiro são envolvidos em uma saga pelos meandros da história brasileira do século XIX, e vão intercalando episódios datados em um vaivém cronológico onde são retomados a cada conjuntura, e vão tramando a história como seres atuantes nos destinos do Brasil.

A Irmandade do Povo Brasileiro avança até Canudos, ápice final do século XIX e ponto de inflexão acerca de nossa crise vazia de princípios, impotente em traçar destinos que não seja o do estado ordenador e ao mesmo tempo excludente. Ubaldo não aceita a teoria comum de que o sertanejo (termo que ele não usa, pois seu ponto de irradiação é a ilha de Itaparica e sua cultura litorânea) seja um povo imerso em uma cultura de misticismo e superstição, que por si só seria capaz de criar somente uma figura profética como elemento de aglutinação, mas jamais um caudilho político revolucionário e ilustrado. Prefere mostrar que o sertanejo é um povo que, não obstante sua exploração e desmandos, ainda mantém intato um discernimento racional sobre seu papel e destino. Tese duvidosa, pois a natureza da infindável crise brasileira está justamente em recusar a modernidade em troca da opção ilusória por uma sociedade onde o mundo colonial possa permanecer intato, bastando para isso que o estado seja redistributivo e assistencialista.

O horror à mudança pode estar fantasiado no desejo de mudar, principalmente naquelas condições lampedusianas onde não se sabe o caminho a traçar, as etapas a serem cumpridas, uma vez que as sociedades evoluídas se distanciaram do Brasil também por caminhos empíricos, embora cristalizadas em princípios da liberdade proporcionada pela luta contra a hierarquização da Contrarreforma que acabou tendo seu alvo dirigido contra o estado.

Nada disso ocorreu por aqui. Passamos do colonial ao marxismo, e os valores liberais ficaram sepultados na demonstração satírica eloquente de Joaquim Manoel de Macedo que, em 1868, reescreveu Dom Quixote ao estilo brasileiro em seu livro: 'Memórias do Sobrinho de Meu Tio'. O gênio do compadre Paciência em Macedo se reflete no general Macário de João Ubaldo Ribeiro: personagens que entendem o Brasil e nada podem fazer por ele, pois se agigantam as forças do atraso de forma tal que o progresso não tem lugar em qualquer perspectiva que não seja a de manter o veneno estatal jorrando intocado.

O livro de Ubaldo deveria encerrar no capítulo XVIII, quando os episódios do século XIX se encerraram. Mas Ubaldo resolve avançar para o século XX em apenas 1/9 de sua narrativa, criando 3 episódios que poderiam servir para um novo volume: quem sabe uma trilogia se dividisse ainda mais, posto que aí já estamos na página 612, e os dois capítulos subsequentes são riquíssimos no entendimento da projeção do século XIX, no século XX, com apenas 60 páginas. Mas talvez este último volume já não pudesse mais conter o mesmo título do primeiro, onde o “Viva” teria de ser substituído pelo “Abaixo”.

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